Seleção Brasileira

No meu primeiro texto, eu poderia meter o pau em milhares de coisas, recentes ou não. Tipo, o Congresso, a tentativa de intimadação ao Mario Vargas Llosa na Venezuela, o time do São Paulo, o cinema brasileiro, a idolatria a pessoas que não merecem (quanta coisa, santo!), mas não eu prefiro começar com algo pra cima, construtivo, alegre. Então resolvi falar da seleção brasileira, mas não a do Dunga, a de 1994 ou a de 70, porque essas aí já tem gente tão ou mais competente pra criticar (será que são tantas assim?). Bem, vamos lá: a Seleção Brasileira:

Goleiro: Tom Jobim – Se todo grande time começa por um grande goleiro, não poderíamos estar melhor. Nosso camisa 1 é consistente, um gigante debaixo da meta, sabe coordenar a zaga como ninguém, sai do gol com precisão cirúrgica e usa toda sua criatividade na saída de bola no iníco das jogadas de ataque. A beleza de suas defesas é tão grande quanto a coragem que tem para sair nos pés do atacante adversário para tomar-lhe a bola quando necessário. Um goleiro completo: seguro, consciente dos espaços, criativo e surpreendente.

Lateral direito: Oscar Niemeyer – Um lateral que domina os espaços de sua área do campo e incomoda dos adversários com suas subidas ao ataque. Não tem medo de cortar para dentro quando necessários e seus cruzamentos são perfeitos: tomam uma curva imprevisível e param exatamente na cabeça do matador, prontas para balançar a rede adversária.

Zagueiro central: Burle Marx – Zagueiro tem que conhecer o espaço da área e marcar terreno sobre o atacante adversário sem cometer faltas. A classe de Marx em realizar esta tarefa é notável: ele não deixa o atacante avançar demais com a bola, domina a entrada da área e joga ali com fineza e elegância. Nada de chutão: habilidade, postura tática, tranquilidade e harmonia com a bola no pé; passe preciso para iniciar as jogadas. Um senhor da grande área.

Quarto-zagueiro: Darcy Ribeiro – A principal característica desse jogador é seu amor pela camisa amarelinha. Ele é o típico atleta que dá o sangue. Contudo, não é um brucutu: tem noção tática como poucos no país e liderança necessária para unir essa seleção de craques. Mas não se engane: o capitão de nosso time também dá chutão quando precisa. É esta raça em campo que deixa nossa retaguarda tranquila.

Lateral esquerdo: Antônio Candido – Conhecedor profundo da técnica, dos espaços, da tática, da dinâmica do jogo. Sua atuação é sempre discreta, mas é admirado por sua competência na marcação e simplicidade bela no passe. Arrisca pouco o ataque, mas domina a arte do passe curto. Seu jogo é no corpo-a-corpo, leitura precisa do adversário, tempo de bola e chute forte nas faltas um pouco mais longe do gol. Não tem medo de ficar com a bola no pé, mas não gosta de firula. Um lateral clássico da técnica, moderno da leitura do jogo.

Primeiro volante: Oswald de Andrade – Oswald é o grande corredor do time. Ele não pára momento algum, é impetuoso na marcação, protege a defesa, cutuca o adversário com sua catimba aprendida em viagens pelo mundo, e sai em velocidade para o ataque. O ponto de ligação do time com sua paciência e olhar preciso para a leitura do jogo. Pode até tomar uns dribles de vez em quando, mas é inteligente o suficiente para recuperar-se e não deixar mais o adversário dobrá-lo. Ainda tem a audácia de dar o troco e meter uma caneta no opositor.

Segundo volante: Chico Buarque – É o jogador mais regular do time e aquele no qual a torcida mais confia. Sem a bola, marca com inteligência fechando os espaços pelo meio; nunca se afoba para tomar a bola: sabe a hora exata de dar o bote. Com a bola no pé é um malandro: cadencia o jogo, se faz de morto, olha para os lados projetando o passe, mas quando o marcador vem dar o bote, dá um drible seco, belo, simples, de deixar o outro perdido atrás da bola. Motorzinho do time, aprendeu com os mestres do passado como fazer a bola chegar da defesa aos armadores: simplicidade, calma e inteligência, com grande dose de bom humor.

Meia-esquerda: João Gilberto – Pensando em grandes meias da história o futebol, João se alinha aos mais clássicos, mestre do passe, do lançamento, considerado um daqueles que jogam “de terno”: a elegância de seus dribles e passes é tão grande quanto a simplicidade. João não é expansivo, não chama a atenção: contudo, faz o ritmo do jogo virar seu, prende a bola tempo exato para deixar o atacante livre para receber a bola, dá um toque na bola com mestria tal que o defensor acha uma coisa, mas ele faz outra. A bola grupa em seu pé e ele a coloca onde quiser. É chamado de esnobe; é, em verdade, um craque.

Meia-direita: Machado de Assis – O mago, o bruxo, o camisa 10. Quando alguém tem que decidir é pra ele que a bola vai. Seu jogo é um livro aberto: leitura precisa do adversário, visão tática do time acima da média, habilidade extraordinária com a bola, passe preciso. Machado, entretanto, não se contenta em fazer tudo acima da média; ele quer encantar, fazer bonito, surpreender. Dribla o adversário onde não há espaço, derruba defesas só com gingado, faz gols magistrais, passes que ninguém esperava. Um jogador completo, magistral, surpreendente, futebol-arte.

Atacante: Glauber Rocha – Ele vai pra cima, corre atrás dos adversários com a bola, atrapalhando a saída de bola do outro time, faz floreios que enlouquecem as desefas inimigas e é impiedoso na hora de marcar. Os adversários o chamam de “Louco”, mas consegue ludibriar como ninguém os zagueiros. Pode-se não entender seu futebol e achá-lo fominha, mas Glauber é um jogador objetivo: quer marcar gols e derrubar os adversários.

Centro-avante: Guimarães Rosa – O que queremos mais de um matador do que botar a bola na rede? Rosa faz isso e mais um pouco. A grande questão não é o número de gols, mas como ele os faz: ele domina a área; ela se torna um universo particular cujas probabilidades são poetizadas com habilidade por ele. Quando a zaga menos vê, ele tem a bola; em instantes ele inventa uma jogada, um drible, um chute e bota a bola no fundo da rede. Esse universo do futebol ganha outras dimensões; o gol vira um mágico momento.

***

Obviamente, essa seleção não se encerra. Muitos poderiam estar nela, mas talvez não seja esta a questão. Afinal, com tantos craques, por que ainda não somos campeões?

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