Simonal e a ditadura

No último mês, duas coisas levantaram a poeira do caso Wilson Simonal e o trouxeram de volta ao centro das discussões. A primeira foi o lançamento do documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei nos cinemas; a outra foi a reportagem da Folha Mais! que traz documentos que comprovam a ligação de Simonal com o serviço de inteligência da ditadura. Motivado pelos dois, este que vos fala gostaria de discutir “algos” sobre o caso:

  1. Um dos argumentos que o filme Simonal… usa para inocentá-lo é que o cantor teria sido ingênuo. Ele era tão famoso e resolver dizer que estava do lado da polícia apenas para não se sujar no caso e parecer um subversivo. Como era muito famoso, pensou que estava acima de qualquer suspeita e se ferrou. Supondo que isso realmente proceda, que Simonal era tão inocente a esse ponto (o que eu duvido), de qualquer maneira mostra o quanto Simonal tinha o rei na barriga, além do que ele teria que ser MUITO, MUITO ingênuo para achar que dizer que estava bem na fita com o DOPS significava apenas não ser subversivo. Ingenuidade esta que vai contra toda a malandragem, esperteza, intuição e inteligência que o filme prega como o que levou Simonal a criar um estilo próprio de cantar.

  2. Ainda que esta tese da ingenuidade seja verda
    deira, NINGUÉM nunca nega que Simonal ligou para dois caras do DOPS para irem dar uma surra no seu ex-contador. Simonal estava puto porque achou que o cara o estava roubando, aí mandou o cara embora. O contador, sentindo-se injustiçado, entrou com processo na justiça do trabalho. Simonal, mais puto ainda com isso, liogu para dois caras do DOPS para dar um apavoro no sujeito. Eles pegaram o contador, levaram para a sede do DOPS e bateram no cara a noite inteira. Isso ninguém nega, isso é fato. Simonal encomendou uma surra no seu ex-contador a dois caras do DOPS, surra que, obviamente levando em conta quem deu, virou tortura e foi onde a merda começou. Quero dizer com tudo isso que, independente da política (o que é difícil no caso), Simonal mandou surrarem o cara, encomendou um apavoro, o que já é levando em conta o lado humano, reprovável em todos os sentidos. Ele sabia que o contador foi levado por dois caras do DOPS e não tentou evitar, não fez nada. Isso já é motivo suficiente para o cara ser jogado um pouquinho na sarjeta para aprender.
  3. A matéria da Folha usa alguns documentos que na minha opinião não provam nada. Apontam, mas não são definitivos. É mais lenha na fogueira que a Folha sempre gosta de colocar para parecer um veículo democrático. Os depoimentos que delegados do DOPS valem tanto quanto nota de 3 reais. Não confio em qualquer coisa que um deles tenha falado, porque há muito interesses envolvidos (inclusive de não se entregarem em algumas coisas). Sério: essa matéria da Folha nada prova.
  4. Duvido que o Simonal tivesse inteligência suficiente para ser informante do DOPS. Quero dizer, aquele cara que finge ser uma coisa com seus companheiros de trabalho para descobrir informações que servirão à polícia política. Sinceramente, ele não me parece capaz de fazer o serviço de informante político. Mas as aparências enganam. Contudo, que ele é capaz que entregar um desafeto à tortura, isso niguém nega. Isso faz dele um dedo-duro, sem dúvidas. Não um dedo-duro conservador que lutava contra a subversão. Isso não acredito mesmo.
  5. Aliás, é ridículo as pessoas tentarem explicar o que passou pela cabeça do Simonal naquele momento conturbado e o pessoal do Pasquim tentando explicar porque perseguiram o cara. O Jaguar tentando fazer a figura de oba-oba já passou é ridículo, constrangedor.
  6. O que nos leva ao último ponto. Jaguar no documentário é o símbolo disso. Não vivi a época, portanto talvez eu não tenha a capacidade de julgar a validade do que vem agora: para a História brasileira talvez a Anistia Geral foi a pior coisa que poderia acontecer como desfecho da ditadura. Por alguns motivos, mas o principal é esse o qual Jaguar se mostrou o símbolo: o oba-oba acabou, já passou, tá tudo resolvido, não tem ressentimentos. Não tem? Um dos argumentos para as ações truculentas da esquerda na época (como crucificar o Simonal) é que estávamos numa guerra, o que implica que então a direita também podia ser truculenta pois afinal era uma guerra minha gente. E a Anistia faz o que? Declara ‘Era uma guerra’. É como se ninguém soubesse o que estava fazendo ao outro, como se uma força maior tivesse descido em cada um dos lados e os usado como bonecos. Todos são inocentes, o que favoreceu sensivelmente torturadores, mandantes de tortura, informantes, assassinos conservadores. Todos são inocentes e não se fala mais nisso. Mas favoreceu também guerrilheiros que mataram alguns cabos ou sargentos pais de família que só cumpriam ordens. Os exemplos servem sinceramente para mostrar que tem uma caixa-preta que não foi aberta, não será aberta e TODO MUNDO parece de acordo. Criou-se um tabu com aprovação social. Como muitas coisas que aconteceram em nossa história e acontecem na sociedade brasileira (mais notadamente o preconceito racial), a ferida deixada pela ditadura é como um ácaro, não percebemos sua presença até nos atingir. A Anistia implantou o mal do esquecimento sobre o nosso passado recente. Esquecemos que Delfim Neto foi ministro do governo militar; Paulo Maluf foi governador do partido do governo militar (e depois eleito prefeito de São Paulo nos anos 90); a Constituição de 88 é anti-ditadura e hoje já não reflete nossas questões sociais; a Rede Globo foi favorecida pela governo militar; entre outras coisas. Esquecemos principalmente que assim como o Simonal foi esquecido, muitas pessoas desapareceram na mão da polícia, muitos foram mortos (Herzog), muitos torturados tiveram suas vidas perdidas (Geraldo Vandré), muito torturadores perderam suas vidas também (mesmo sem punições, e deveriam ser punidos), e muitos militares da época que ordenaram torturas e assassinatos desfrutaram ou desfrutam das regalias do exército às custas do dinheiro da viúva (ou melhor O MEU, O SEU, O NOSSO). A grande falha do documentário é não perceber que independente de quem for essa história não permite redenção, porque nunca houve vontade de redimir quem tem que ser redimido e punir quem deve ser punido. É a festa democrática da sociedade brasileira.
  7. Bem… a ferida continua aberta.
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