O Desarme

desarme

Pierre, o "ladrão" do Palmeiras

Num futebol com forte preparo físico e muita disciplina tática como o de hoje, um fundamento ganha vital importância para a decisão dos jogos: o desarme.

O desarme é a famosa “roubada de bola” e consiste em tirar a bola do jogador adversário, mas não apenas isso: é necessário sair com a bola do dominada, senão temos apenas uma “tirada de bola”. Portanto, o desarme é a jogada em que se inverte o mando da pelota; quem defendia agora tem a bola nos pés para partir ao ataque.

São dois os tipos de desarmes: i. quando o jogador atacante tem pleno domínio da bola e tenta progredir com a jogada, porém, durante a progressão, o marcador tira a bola; ii. o defensor rouba a bola no momento em que o atacante domina a bola, mas logo antes deste tentar qualquer progressão. O segundo tipo pega o adversário com as calças na mão e, em geral, é mais surpreendente, favorecendo a armação de um contra-ataque.

É aí que reside a importância atual do desarme. Quando se enfrenta um time sólido do meio para trás como o Chelsea, por exemplo, o time tem três alternativas: tenta a penetração pelo toque de bola, arrisca chutes de longa distância ou pega o adversário no contra-ataque, desarmando-o na intermediária. A primeira alternativa, em geral, é a mais difícil, mesmo para bons times de toque refinado, como o Barcelona, que teve muitas dificuldades para vencer o Chelsea na semifinal da Champions League do último ano. Só venceu quando, no desespero, arriscou chutes de fora da área.Não é fácil ser um bom “ladrão”. Jogando em solo brasileiro no primeiro semestre, tínhamos dois especialistas: Pierre, do Palmeiras, e Christian, do Corinthians. O primeiro é talvez o melhor do desarme que impede a progressão da jogada; já Christian é excelente em surpreender o atacante. Como corria bastante, sempre armava contra-ataques fatais. Contudo, Pierre está machucado e o Palmeiras já começa a sentir esse problema, pois Souza e Edmilson não conseguem desempenhar bem o papel e o forte do time verde é o ataque com Diego Souza e Cleiton Xavier chegando em velocidade perto da área. Christian foi vendido e o Corinthians perdeu consideravelmente seu poder de fogo. Agora é um time mais vulnerável e menos insinuante.

Hoje a moda na Europa (e já se começa a importar a moda aqui também) é o meia que marca e ataca, um jogador que rouba a bola na intermediária do seu time e leva a bola até perto da área do adversário. Os times europeus estão recheados de jogadores assim, como Lampard, Ballack, Xavi, Iniesta. Pirlo, Gerrard. O primeiro grande meia moderno brasileiro talvez seja Falcão. Ele marcava, tinha qualidade no passe, armava, driblava, entrava na área para fazer gols, um jogador que não cabia nas classificações de volante ou armador: Falcão era um meio-campista, tático e habilidoso. Um jogador com essas características hoje no Brasil (guardadas as devidas proporções) é Hernanes, do São Paulo, que cairia muito bem no meio campo do Barcelona, um dos melhores meio-campo do mundo.

O time catalão joga com três atacantes (Messi, Henry e Ibraimovic), o que o torna bem incisivo, mas que é heterodoxo para os padrões de hoje porque, em teoria, deixa o meio de campo desguarnecido. Contudo, o Barça tem um volante de contenção na frente da área e dois meio-campistas que marcam muito forte (Xavi e Iniesta) e de passa muito refinado, capaz de furar a maior parte das defesas do mundo. O Barça joga numa espécie de 4-3-3, esquema que reinou até os anos 60, com toques contemporâneos de todo mundo marcando já na saída do adversário. Como nem todos os times tem toque de bola refinado, o desarme fica mais fácil e efetivo. O Barcelona é o melhor time do mundo hoje porque ataca com qualidade, marca pressão, desarma fácil e contra-ataca com velocidade, quatro ingredientes raros de estarem  juntos na mesma equipe.

Essa conjunção de fatores só é possível porque o desarme funciona, o que o torna um time vencedor. Sem a marcação e o conseqüente desarme, o Barça seria presa fácil e mais um exemplo de time talentoso, mas que no final não vence. Num futebol de muito preparo físico e disciplina tática, como o de hoje, o talento sempre vencerá se marcar forte e, claro, desarmar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: