Charlie Rouse

Charlie Rouse

Não se esqueçam de mim!

O que é melhor que um CD do Thelonious Monk estrelando John Coltrane? Um CD do Thelonious Monk sem John Coltrane.

Coltrane é (discutivelmente) o maior saxofonista da história. Sua breve carreira, abortada por um câncer de fígado aos 40 anos, é de causar inveja a qualquer músico que se preze, não só pelo êxito astronômico de seu período solo, mas também por sua privilegiada germinação, acompanhando instrumentistas como Dizzy Gillespie, Miles Davis e o próprio Monk no final da década de 50.

Ouvir Coltrane com Monk, como no disco ao vivo no Carnegie Hall, é um deleite em termos de registro histórico e qualidade musical. Pra quem é neurótico por Monk, porém, não é a melhor pedida, pois apesar de Coltrane não ter desenvolvido por completo seu estilo único e transcedental, ele aparece, sublinhado nos seus improvisos, no mesmo patamar do pianista, criando uma mistura bonita e orgânica, mas tão heterogênea quanto.

O saxofonista que melhor entendeu, compreendeu, representou e traduziu Monk no seu instrumento foi um sujeito chamado Charlie Rouse, que acompanhou o pianista na maior parte de sua carreira. Monk’s Dream, um disco de 1962, mostra o som de Thelonious amplificado no fraseado do saxofonista, em especial na música-título e na faixa Bright Mississipi, uma composição simples e imprevisível.

Charlie Rouse é um tipo de jazzista tão necessário e importante quanto aqueles canonizados por crítica e público. É o típico acompanhante, o cara que se especializa em estudar e entender o som de seu líder, fazendo do jazz o verdadeiro jogo democrático que ele é, mas sem perder com isso a coerência do discurso.

Junto com Charlie Rouse, podemos lembrar dos fiéis bateristas Dannie Richmond e Gene Krupa que acompanharam, respectivamente, Charles Mingus e Benny Goodman. Também ao lado de Benny Goodman, Mike Bryan, guitarrista que nunca fez um solo sequer na sua vida (diz a lenda).

Para aqueles que curtem um jazz, seja assistindo aos canais de 3 dígitos da NET, ou na varanda da sua casa depois de um delicioso almoço repleto de arroz de pato, nunca se esqueçam dos Charlies Rouses nos quais a Música se apoiou. Ater-se aos Thelonious Monks da vida é como esquecer de metade do que o jazz é, ou seja, o indivíduo em detrimento do coletivo.

Ou, como diria Chico Marx com seu sotaque pseudo-italiano: “Mostarda é uma merda sem rosbife”.

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