CRÍTICA: Up – Altas Aventuras

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Já faz algum tempo que a Pixar assumiu a vanguarda dos filmes de animação americanos, não apenas por causa do impacto que Toy Story causou no gênero. A produtora, sob a batuta de John Lasseter, buscou sempre aliar a qualidade técnica com boas histórias. Com o tempo, a Pixar buscou desafios gráficos interessantes, como os pêlos em Monstros S. A., o mundo marinho em Procurando Nemo, superfícies metálicas em Carros e Wall-e. É, contudo, nos roteiros que a Pixar conquistaram a larga vantagem que suas produções tem hoje sobre a Fox de Era do Gelo e a Dreamworks e seu Shrek.

As histórias da Pixar buscam sair da pura infantilização, os roteiristas e diretores arriscam-se por terreno mais adultos, ou melhor seria dizer, maduros. Excetuando-se o comum Carros, suas últimas produções exploraram temas mais complexos na maioria das vezes de maneira fora do comum para filmes de animação. É o caso evidente de Wall-e e seus quase quarenta minutos com apenas um personagem em cena e suas várias camadas dramatúrgicas para abordar problemas como a destruição ambiental do planeta, o poder das megaempresas e a alienação do ser humano.

Não é diferente no lançamento deste ano da produtora, Up – Altas Aventuras. Algumas características em comum com outros filmes da produtora americana estão aqui de cara, a começar por partir do “filme de aventura” (como Os Incríveis partia dos super-heróis e Wall-e da ficção científica). E é inegável a influência de Indiana Jones e dos filmes seriados dos anos 40 e 50: o prólogo é uma adorável ode ao poder da imagem e desse universo fantástico sobre o imaginário da criança.

Neste início, o filme é muito eficiente em colocar em jogo os principais temas da história com economia de recursos e fluidez. Assim, rapidamente conhecemos a trajetória do ranzinza Carl Fredricksen que insiste numa vida de sonho que leva desde a infância. Carl é uma daquelas pessoas apegadas à sua rotina, ao seu estado de vida, avesso a mudanças, principalmente após a morte da esposa.

Aqui há o primeiro grande acerto do filme, pois é incomum se aproveitar de temas tão caros ao universo adulto como a morte, o ressentimento, a frustração dos sonhos não realizados, o apego ao passado e àqueles que já se foram. Não que isso seja abordado de maneira discursiva (quero dizer, verbalizada insistentemente ao longo do filme), longe disso. Como em Wall-e e Ratatouille, temas assim ficam numa camada intermediária da fábula, alcançada na maioria das vezes pelas sensações que as cenas causam no espectador. Obviamente, que há momentos em que o tema da morte e do desapego vem para a frente, mas nunca parece algo forçado, está sempre num tom certo, econômico, austero. O uso dos recursos dramatúrgicos e audiovisuais reflete a candura do olhar aos conflitos do protagonista.

Carl e seu "buddy" Russell

Carl e seu "buddy" Russell

Os conflitos do protagonista se afloram devido a Russell que, por engano, Carl para suas aventuras. Russell é um garoto escoteiro que tem problemas de relacionamento com o pai, mas cuja visão para o mundo ainda está em formação. Ele é a inocência do olhar que se contrapõe à descrença e ao dissabor de Carl para com a vida. Nesse sentido, o filme é um “buddy movie”, pois os personagens se completam em seus conflitos e contrastes, suas visões de mundo opostas, seus desejos divergentes que, no fundo, podem ser resolvidos com ajuda mútua, ecoando Harrison Ford e Sean Connery em Indiana Jones e a Última Cruzada.

Com o desenrolar da história e das aventuras de Carl e Russell em uma floresta da América do Sul, percebemos que velho bem como a criança devem aprender com as aventuras que a vida proporciona. Outros “grandes temas” acabam por adentrar a história e Up…, ganha mais camadas e sensações quanto mais perto do fim se aproxima. É uma experiência intensa e divertida para o espectador, pois além da fábula em si, há toda uma reflexão sobre a terceira idade, em como tocar a vida mesmo quando todo o universo ao seu redor se desfaz. A melancolia ranzinza de Carl do início do filme vai progressivamente se tornando uma lição sobre como deixar o passado onde ele está; uma mensagem de superação que resulta, como em outros filmes da Pixar, menos do que é dito e mais pelo jogo entre os recursos de linguagem e as sensações que causam no espectador, uma experiência que não menospreza seu público.

Um bom exemplo dessa boa vontade com seu espectador é o uso da tecnologia 3-D, muito bem aproveitada em Up…, não apenas pelos objetos que passam para frente na tela, mas também no uso da profundidade em cenas perto de desfiladeiros e nos planos gerais, onde a paisagem se perde de vista e fica mais grandiosa com a utilização dessa tecnologia. O efeito plástico é marcante, pois vai muito além do impacto de alguns momentos; ele quer realçar a estética visual dos cenários criados, das florestas selvagens, das cavernas opulentas, o imenso céu azul. Talvez seja o primeiro grande exemplo de 3-D pensado dentro do conjunto estético do filme e não apenas como forma de engrandecer a exibição.

E a vida continua, como defende o filme, seja para Russell, Carl ou quem tiver idade entre esses dois personagens – ou seja, qualquer criança entre 7 e 70 anos de idade. Up…, para além de seu trabalho técnico bem sucedido, é um filme de sorrisos e lágrimas na medida exata de cada um que o vê.

Up – Altas Aventuras (Up, 2009), dir. Pete Docter


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