Deixa Ela Entrar

Não é por acaso que no folheto de divulgação do filme Deixa Ela Entrar consta a frase de efeito (publicitário, lógico) “Se você é fá de Crepúsculo, não deixe de assistir”. Isso porque assim como na blockbuster americano do momento, esta pequena obra sueca funda seus pés na ambientação do jogo melodramático no universo vampiresco. Ou seja, tanto Crepúsculo quanto Deixa Ela Entrar se colocam, a princípio, dentro de duas tradições estabelecidas, a saber, melodrama e vampiros.

Contudo, Crepúsculo quer reduzir o jogo melodramático a emoções fáceis causadas por procedimentos já codificados e reproduzidos a exaustão a fim de domesticar os jovens espectadores ávidos por esse imaginário do fantástico. À primeira vista, Crepúsculo se colocava como uma abordagem diferente desse imaginário, apenas para descobrirmos que, no frigir dos ovos, a verdade está lá fora, não no embuste melô-adolescente de Stephanie Meyer, apenas mais um romance melado em cada plano pronto para adocicar a vida de jovens ingênuos e os cofres da indústria cultural.

Com Deixa Ela Entrar temos um exemplo claro de outra pulsão dentro do mesmo universo. Aqui também temos vampiros e conflitos sentimentais. Contudo, Tomas Alfredson usa outra aproximação ao melodrama, sem exagerar muito no “melo”. Primeiro, ele se interessa por um microcosmo pouco elegante: estamos no subúrbio de uma cidade grande da Suécia, num condomínio estilo CDHU (sempre levando em conta que lá é a Suécia), acompanhando um garoto de 12 anos que não faz amigos no colégio e é constantemente atormentado pelo garotos mais velhos. Trata-se, aqui, de abordar os excluídos, representados na figura desse garoto.

E o que poderia acompanhar melhor esse retrato dos excluídos que uma vampira de 12 anos?

É do encontro entre Oskar (o garoto) e Eli (a vampira) que Alfredson constrói um olhar sensível sobre essa relação de excluídos com o mundo, suas sensações e efeitos.

deixa ela entrar

Não é que o roteiro seja de uma sofisticação dramatúrgica espantosa, aliás, como dramaturgia ele não faz grande floreios ou busca alternativas incomuns para resoluções de cenas. A força motora do filme está no comportamento da câmera de Alfredson com seus atores, em como ele consegue mesurar com destreza a sensibilidade de cada momento.

O filme demora a engatar, mas depois encontra a proximidade certa com as personagens e , a partir daí, tudo flui num ritmo espantosamente natural. Fica claro o impulso do realizador de buscar algo de poético e pueril neste encontro inusitado, como que a se expandir pela vida, a mostrar o fantástico dos momentos simples, das ilusões, dos desejos e sensações. É um universo sensível que se cria em paralelo à vida, como um amigo imaginário com quem não há limites para a entrega ou um filme onde o irreal é possível.

Outro grande mérito está em fugir da simples história de superação. Claro que os personagens tem barreiras a ser transpostas: Oskar tem seus problemas de relacionamento oriundos de certa falta de tato a lidar com suas emoções e fraquezas; Eli tem que lutar pela vida. Assim, Alfredson consegue entrar em outros temas mais espinhosos, como os problemas parentais e, principalmente, o desejo de vingança, a raiva potencial deste garoto, os sentimentos de culpa e raiva que se misturam e ficam latentes até o momento da explosão, mostrados de maneira interessante no filme.

Não é um filme gráfico, nesse sentido, apesar do sangue e dos sentimentos extremos que ele aborda. Deixa Ela Entrar tem uma aproximação com seus temas próxima de algo que paira pelo ritmo geral da montagem do que pela força de cada uma das imagem. É um filme que se embeleza pela sobriedade da simplicidade de  sua construção, pelo toque no efêmero de seu conjunto, ainda que feito de um imaginário e de sensações longe do trivial.

Deixa Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, 2008), dir. Tomas Alfredson

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