Alguém entende a psiquê das personagens dos filmes franceses?

Porque eu não entendo.

Não é à toa que a palavra blasé é importada de lá.

Os franceses são realmente  despojados e desapegados, sem dúvida. Mas toda vez que assisto a um filme de lá, fico embasbacado com a capacidade das personagens terem reações amenas em momentos de grande voltagem emocional.

E olha que eu não estou falando dos cineastas que fazem um cinema mais experimental e conceitual como o Godard. Estou falando dos que se propõem a fazer um cinema sofisticado, mas dentro dos parâmetros de uma dramaturgia mais convencional.

- Sabe, estou traindo você com outro homem. - Não sabia. Dá um trago?

Isso não é, em absoluto, igual a dizer que os filmes são ruins. Muito ao contrário. Mas pode assistir quem você quiser, seja Truffaut, Chabrol, Rohmer, Resnais, Honoré e perceber que os caras são meio pirados, que os padrões de comportamento que esperamos por aqui não contam por lá.

A explicação pra essa profunda inadequação na hora de reagir conforme o momento pede, ou de ser excessivamente fleugmático em momentos de grande intensidade,  certamente não é geográfica, já que a França faz fronteira com a Espanha e Itália, povos reconhecidamente passionais e sanguíneos. Tourada e pau de macarrão não combinam com falar fazendo biquinho.

Sobram exemplos.

Antoine Doinel, o célebre personagem de Truffaut: quantas vezes você espera que ele se descabele e pragueje contra os céus em sua vida desastrada ao longo de todos os filmes da série, mas ele se mantém com aquela carinha amena de alguém cuja maior preocupação é escolher em qual boulangerie vai comer seu croissant?

Em Cléo das cinco às sete, filme da grande Agnes Varda, há uma cena que ilustra isso com precisão. O filme, como o título antecipa, acompanha duas horas na vida de Cléo, que suspeita ter câncer.  Lá pelas tantas ela encontra uma amiga. Elas conversam e a amiga percebe que Cléo está meio triste e pergunta o motivo. Cléo responde falando de sua suspeita.

Pausa. O que você faria se ouvisse uma amiga dizer isso? Como uma personagem de um roteiro que você escrevesse reagiria diante dessa confissão de uma amiga?

A amiga de Cléo, com a mesma tragicidade no olhar de quem acena para um táxi, limita-se a um lacônico: “Desolé”.

E os filmes recentes de Alain Resnais? Medos privados em lugares públicos? Alguém entendeu o que se passa na cabeça daquelas personagens solitárias e ególatras? Eu não.

- Estou grávida. - Puxa, que estado interessante.

O que é maluco nisso tudo é que nessa confusão você acaba se afastando daquele que é considerado um preceito básico de uma boa construção dramatúrgica, que é entender a motivação das personagens, e fica meio à deriva pra especular quais os possíveis encaminhamentos da história. Por outro lado, surpreendentemente, na maioria das vezes, essa impossibilidade de compreender não aborrece, nem faz com que se odeie o filme em questão.

É como se o tempo todo você se perguntasse se o cara vai ficar com a mulher ou a amante, e o cara responde comprando um quadro num leilão de arte contemporânea.

Um fenômeno tão interessante e intrincado que já quero muito mudar de assunto.

- Querida, andei pensando e acho que a vida não vale a pena. Vou me matar. - Desolé.

7 respostas para Alguém entende a psiquê das personagens dos filmes franceses?

  1. Cida Souza disse:

    et…Je suis desolé aussi…rsrsrsrs
    Concordo, Viniiiiiii….

  2. Chico disse:

    Depois de 11 meses morando nesse país, eu ainda não os entendo.

    Pior de tudo é constatar que nem mesmo eles se entendem.

    Vai entender!

  3. adorei, Vinicius! rs
    adoro os filmes franceses, e adoro essa diferença toda. esse comportamento ‘francês’!

    ah, só o que sei é que os filmes parecendo blasés ou não, ‘frios’ ou não, eles me emocionam! talvez por eu ser brasileira… rs

    mas a cena do Antoine Doinel no espelho, falando o nome das duas mulheres em ‘Beijos Proibidos’ é linda!

    beijo!

  4. Raul Arthuso disse:

    Posso tentar?
    Antoine Doinel: um ser cinematográfico, só pode ser entendido assim. Por isso que o último filme (O Amor em Fuga?) é uma droga. Nesse filme ele é alguém comum, um ser do mundo real e não uma projeção cinematográfica.
    De resto, acho que os franceses tem essa coisa de que as pessoas agem de maneira inesperada em momentos críticos. O que acontece é que enquanto os italianos (bons roteiristas) gritam e jogam farinha um no outro, os franceses (artistas) acham que recitar uma poesia é mais inesperado. E as vezes levam isso ao paroxismo.
    Em resumo, estou concordando com você (acho) e vamos mudar de assunto.

  5. […] por causa do texto do belo texto do nosso querido Vini sobre os franceses. Depois porque além de francesa, ela tem no sangue dois dos maiores “monumentos” do […]

  6. Cristiana Ferraz disse:

    Olha, só sei que os casos de amor do Godard quase me levam a um ataque de nervos. Meu nariz arrebitado faz meio mundo pensar que sou francesa em vários lugares do planeta por onde andei, mas que ninguém se engane: em vez de ter as reações da Brigitte Bardot eu jogaria umas cadeiras pra cima dos namorados e afins que me tratassem como ela foi tratada em “O Desprezo”.

  7. Renata Santos disse:

    O único filme francês que “salva” é o famoso Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
    Concordo com tudo o que Vinicius escreveu.

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