Carta Aberta ao Tiririca

Caro Francisco Everardo,

tenho pensado bastante em sua distinta pessoa nos últimos tempos e julguei que minha gestão como convidado do mês aqui no Só Casando seria perfeita para externar esses pensamentos em forma de carta aberta.

A carta é aberta pois nada do que nela será dito é diferente daquilo que já tenho dito em meu dia-a-dia, portanto não há razão para sigilo.

Mas, por se tratar de uma carta aberta, vou pedir a licença de fazer alguns parêntesis, para situar os outros leitores, pode ser?

Porque você, Francisco Everardo, como outros tantos cearenses ilustres, fez do humor seu ganha pão: primeiro como palhaço de circo, depois como cantor e humorista de tv. Claro que foi fundamental achar um nome artístico condizente com sua persona pública e Tiririca foi uma escolha tão acertada quanto necessária, sobretudo para alguém que tem exatamente o mesmíssimo nome de todos os irmãos homens.

(Pasmem, pois é verdade; todos os irmãos homens de Tiririca chamam-se Francisco Everardo, exatamente como ele).

Ai, ai, ai menino lindo!

Tenho certeza de que foram anos de muita labuta, de uma vida pra lá de mambembe em espetáculos circenses pelo brasil adentro.

E de repente, você era um sujeito de peruca loira e roupa espalhafatosa cantando uma obtusa historia de amor por uma tal Florentina de Jesus.

Essa canção esquisitíssima, de onde saíram pérolas como ‘qual é, qual foi, por que é que tu tá nessa?’ e ‘cala essa boca senão vou acabar botando seus dente pa dento‘  somada à sua figura não menos exótica, transformaram-se num estrondoso e inesperado sucesso comercial, somando mais de um milhão e meio de cópias de seu primeiro cd vendidas no país.

Na época eu devia ter não mais do que dez ou onze anos, e, inserido num contexto meio opressivo, no qual muitas das pessoas mais velhas à minha volta se apressavam em ver na sua figura uma clara demonstração de degeneração da música brasileira, também embarquei nessa canoa e criei um precoce preconceito. Mas peço desculpas e acho que você as concederá, afinal de contas eu era apenas uma criança.

E afinal de contas, você viveu coisas bem piores.

Como uma disparatada acusão de racismo em uma de suas canções, fruto de uma hipocrisia que é muito nossa, tupiniquim da gema, de uma gente que se ocupa em importunar e desautorizar o sucesso daqueles que estão em evidência, e há um especial desconforto quando esses são de origem pobre, e calar diante de calamidades muito mais urgentes.

Depois desse sucesso avassalador, vieram oscilações, novas incursões musicais, a aparição de seu filho bastardo no showbiz, o inesquecível Tirulipa Junior, até que você começou a trabalhar em programas humorísticos na TV.

E como cresceu esse menino! Mas qual dos dois é o Tirulipa?

Inesquecível

Já haviam se passado vários anos desde sua bombástica aparição na cultura brasileira, quando voltei a vê-lo em ‘A Praça é nossa“. É difícil pensar em um programa de humor mais vulgar, retrógrado e desagradável. Mas toda vez que eu via por acaso você dizendo em alto e bom som ‘CARROZAUBETO’ (aka Carlos Alberto),  sua saudação ao dono daquele surrado banco de praça , achava muito engraçado.

O que é exatamente engraçado? Acho que esse é o grande mistério que sua figura encerra e que chamou a minha atenção. Porque,  fazendo uma tipologia meio grosseira, podemos rir de alguém, ou com alguém.

No seu caso, estamos rindo de e com você.

Por um lado, rindo de sua inadequação, de sua incapacidade de dizer o texto sem interrompê-lo diversas vezes com risos descontrolados e cacos a granel, e quase nunca cumprir a fala que lhe foi designada. Por outro lado, seu riso e sua postura, sua desobediência ao texto, são quase uma ironia ante a insuficiência e a pobreza daquilo que foi escrito. É como se você olhasse pro telespectador e dissesse, ‘pois é, é isso mesmo que eu tenho que dizer, pode uma coisa dessas?’

Com o tempo, toda essa idéia foi ficando mais clara e eu passei a adorar suas aparições, mesmo que sempre inseridas em programas impreterivelmente babacas. Nunca me esqueço de quando você foi ao Raul Gil, no quadro de tirar ou não o chapéu, e na tentativa de explicar por que razão você não tirava o chapéu pro George W. Bush, ficou cerca de três minutos olhando pra câmera, que o captava em plano fechado, rindo e balbuciando ‘Jógi Busho”, sem dar qualquer outra explicação. (Pensando bem, puta idéia do diretor do programa perguntar se você tiraria o chapéu pro George W. Bush)

Ou mesmo quando, num quadro do Show do Tom que simulava um julgamento, você, no papel de Promotor, levantou-se com extrema seriedade e dirigiu-se ao Juiz com extrema adequação: ‘Metitíssimo

Quando comecei a descrever sua trajetória, falei que você começou como palhaço de circo. Pensando melhor, acho que você nunca saiu do circo, escola de um humor puro, mais imediato e menos cerebral, mas profundamente encantador e que portanto é um herdeiro tardio e pós moderno de uma linhagem importante do humor brasileiro, de Arrelia e Piolim, passando por Oscarito e Grande Otelo, e pelos Trapalhões. (Porque talvez não se lembrem, mas o Renato Aragão já foi muito engraçado antes de se ocupar mais com causas humanitárias e virar embaixador da UNICEF. Aliás, acho até que o Renato Aragão alegrava muito mais a humanidade quando se preocupava em ser somente engraçado).

É claro que muita gente vai cair de pau em mim, dizendo que cometo uma heresia em juntá-lo num balaio que contém Oscarito e Mussum, entre outros.

Mas o fato é que, em você, encontro uma graça mais genuína, um oásis no meio de um monte de amostragens de humor pseudo inteligente  e superestimado; de uma infestação de péssimos ‘comediantes’ fazendo fama e fortuna como stand up , essa modalidade humorística tão especificamente norte americana pateticamente transposta e instalada por aqui; a ver vários programas fazendo críticas baratas do mundo das celebridades, perpetuando um humor covarde, misto de espancamento de bêbado com humilhação pública, e se alimentando do mesmo sistema que critica; a ver o Casseta e Planeta, que já foi tão brilhante, sobretudo na época em que era uma publicação impressa e não um programa de TV, tão domesticado, reverberando vontades explícitas de sua emissora; e outros humoristas garotões posto 9 zona sul, fazendo paródias musicais e saindo na capa das revistas como paladinos da renovação do humor brasileiro.

(Não estou dizendo que não se faça nada de bom em outros programas humorísticos, que eles não tenham coisas engraçadas e inteligentes; só não concordo com o oba oba excessivo em cima de fórmulas nada renovadoras, apregoadas como humor inteligente e salvação da lavoura).

Em suma, acho que essa carta é uma epécie de um agradecimento e elogio público a você, Francisco Everardo, e a esse seu humor tão franco em seu desejo puro e simples de fazer rir.

Não sou desses que exigem brasilidade em tudo, mas acho que seu humor é muito brasileiro, na sua maneira de incorporar a precariedade com graça.

E antes que os babacas de plantão digam que estou fazendo uma apologia da ignorância, justamente por você não ser um sujeito dos mais letrados, acho que a primeira associação que sua figura provoca é a de uma criança, em sua inadequação, seu desejo de falar palavras difíceis que saem sempre erradas.

(Mas os babacas de plantão sempre terão combustível e vão dizer que eu idealizei sua figura, e que compará-lo a uma criança é piegas e tal e coisa).

Mas deixa que digam o que quiserem. E seja lá o que disserem, vai se manter minha opinião sobre sua figura, traduzida numa palavra que você mesmo criou: “Fantárdigo!”

Um abraço,

Vinicius

E que tal fazer um remake brasileiro de "Um morto muito louco", com Selton Mello e Matheus Nachtergaele nos papéis dos amigos, e Tiririca no papel de morto? Sucesso garantido

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13 Responses to Carta Aberta ao Tiririca

  1. Suza disse:

    Poucas vezes na minha vida concordei tanto com um texto. Gostaria de ter sido o autor dessa cornucópia de verdades.

  2. Queria eu ter nascido no norte/nordeste.

  3. Ber disse:

    Mas o tiririca faz stand-up:

    (e ele é bom!)

  4. […] pelo post sincero e emocionado do Vini, me perguntei sobre o que é realmente engraçado e bolei essa lista dos 10 melhores filmes de […]

  5. Raul Arthuso disse:

    Como eu sempre digo, o problema não são os humoristas, mas os roteiristas…

  6. Jasmin disse:

    Caiu uma lágrima, Vini.

  7. Maria Isabel Caram Abduch disse:

    Puxa vida, você escreve melhor que um adEvogado, hein Vinê…

  8. Laura disse:

    Comovente demais.

  9. Vinicius Feder disse:

    Nostalgia total! tiririca eh vida!!!
    Eh com certeza uma personalidade que deveria ter mais reconhecimento pelo seu dom de fazer rir ao inves de chorar.

  10. Neucy C Serra disse:

    gostei de te-los encontrado e gostaria de saber como posso contrata-los para nossos eventos empresarial

    fone 32460577
    77687082 nextel

  11. vitoria disse:

    Daew meu dotoso =D sou sua fã e gosto muito de voce e sua páiaçada =D hohho’ te amo xD

    nome;vittoria

    teamo

  12. vitoria disse:

    nome;vitoria;miliga34723426

  13. brena disse:

    oi vc é uma pessoa de coração humilde gostei muito de vê alguns espetaculo foi muito bom vc é super gente boa sou sua fâ espero lembrar de mim vc foi fazer um show em marcos
    no d’napolis circos

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