Os 10 planos mais inesquecíveis da história do Cinema

Hoje, meus amigos, eu queria olhar com carinho para aquilo que é a verdadeira unidade do cinema: o plano.

Um plano é um conjunto de fotogramas rodado ininterruptamente, que contém dentro dele uma restrição espacial e temporal. Um filme é normalmente feito de vários planos, como por exemplo um plano de um sujeito falando uma coisa, um segundo de um outro sujeito respondendo e por aí vai.

Nas palavras de um amigo meu que não faz cinema: “Plano é aquilo que a gente vê entre uma piscada e outra”.

O cinema é recheado de planos lendários, planos emblemáticos, planos primorosos ou planos com uma força simbólica enorme. Um plano pode durar meio segundo e pode durar vários minutos. Ás vezes, como é o caso de Arca Russa e, discutivelmente, Festim Diabólico, o filme inteiro é feito de um plano só.

Na minha lista de 10 maiores planos da história do Cinema, tentei não incluir nenhum desses casos, porque seria como dar um Oscar de Efeito Especial para um filme da Pixar.

Divirtam-se:

10 – Matrix – Neo foge das balas e a câmera gira loucona

Matrix, com toda sua tecnomagia, é um filme deveras interessante e, mais do que isso, muito divertido. Quando Neo se curva em direção ao chão para desviar de uma rajada de balas, o filme repete um procedimento inovador e que é recorrente em toda sua trilogia: a câmera rodopia o objeto filmado enquanto a ação quase congela. É como se a câmera distorcesse completamente a noção humana de espaço-tempo e proporcionasse aos nossos olhos uma visão impactante e inédita. De deixar qualquer um de bauduco.

9 – O Iluminado – Jack Nicholson dá com o carão no racho da porta

A aparição em quadro de Jack Nicholson no buraco que ele mesmo fez na porta com a machada é a verdadeira imagem do horror e da loucura. É assustador como outras aparições em quadro (aquele maninho de boné que grita “up-diriri” no Mortal Kombat, entre outros), mas intensificado pelo brilho e intensidade da atuação de Jack Nicholson criando, junto com Kubrick, um dos planos mais reconhecidos do nosso imaginário popular.

8 – Cães de aluguel – aquele psicopata está prestes a tirar fora a orelha do coitado e ninguém tá afim de ver isso

Mr. Blonde não é um bandido qualquer. Mr. Blonde é um perverso, um sádico, o verdadeiro filho da puta. Como qualquer figura satânica do cinema, Mr. Blonde é também um personagem carismático e irresistível. Suas atitudes, porém, não são apenas reprováveis num universo real: elas são doídas de se ver. Tarantino, aquele grande diretor acusado de apelar para cenas gráficas de violência gratuita, faz uma das opções mais espertas de decupagem ao filmar a cena de Mr. Blonde cortando a orelha de um policial: ele desvia a câmera da ação e passa a filmar uma porta, deixando o acontecimento em off, como se nem a câmera, detentora de um olhar neutro, aguentasse ver as atrocidades desse homem.

7 – Noites de Cabíria – Depois de muito se foder, Cabíria olha pra câmera

Amar profundamente uma personagem é, entre outras coisas, amenizar sua eminente tragédia. Fellini, com nós, ama Cabíria e abusa da sua onipotência de autor para presenteá-la, no final do filme, com uma trupe mambembe de italianinhos cantantes que, com sua cantoria, aliviam a alma da protagonista carregada de tanto levar na bunda durante o filme. Em troca, Cabíria olha para a câmera e sorri, como quem diz: “Galera, a vida é essa merda mesmo, fazer o que”. Emocionante pra caralho.

6 – Profissão Repórter – como caralhos a câmera saiu pela janela… peraí meu que porra é essa?

Mais um plano emblemático e, mais uma vez, Jack Nicholson. Dessa vez, porém, o mérito não é nada dele, e sim do diretor: nessa cena o ator só finge de morto, enquanto o resto se encarrega de fazer um final inesquecível e que não só sintetiza esse que é um dos meus filmes favoritos do Antonioni, mas também deixa qualquer neguinho que entende do riscado prestes a ter um descontrolado orgasmo, dado o enorme desafio técnico que foi proposto para filmar esse mirabolante plano-sequência.

5 – Nostalgia – a porra da vela que vive apagando

Nesse interminável plano feito por Tarkovsky, o cara tem que levar uma vela acesa por um trajeto, mas a vela sempre apaga e ele tem que voltar do começo. É uma cena cheia de simbologias, se você quiser ser muito sumário e ridículo pode encarar o caminhar como um símbolo da persistência e da fé, mas você pode ir longe também e ser um chato insuportável versando durante horas sobre a relação entre o cinema de Tarkovsky e a filosofia de Kant. De qualquer forma, o caminhar com a vela na mão é feito numa abordagem que quase não se vê no cinema, que só um cineasta loucão e pirado no tempo como era Tarkovsky poderia fazer.

4 – O dragão da maldade contra o santo guerreiro – porque lutar sem pano na boca é coisa de boiola


Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro é um filme muito pica dura. Rambo é o caralho, Chuck Norris que se foda. O filme é cheio de planos lindos e enquadrados que nem a porra, mas nenhum supera a lutinha de espada entre Antônio das Mortes e Coirana, filmado em plano-sequência. O duelo é feito com os dois mordendo pontas opostas de um lenço, que é pra ninguém picar a mula. Um pouco como os manos de braços atados no clipe do Beat It, só que menos anos 80, menos americano, menos gay e menos mal feito.

3 – O Cão Andaluz – Passando a lambida no olho da moça

Eu coloquei aqui o plano anterior ao do bisturi passando no olho da moça e tirando fora aquela meleca ocular porque, na boa, muito nojento aquela porra.

2 – Rastros de Ódio – Valeu John Wayne, agora fica aí de boa do lado de fora enquanto a gente comemora

Parado no batente da porta, John Wayne coloca-se no seu lugar de caubói, um caubói sozinho, alheio ao espaço domiciliar e pertencente ao deserto árido e vermelho. É um final de filme feliz em que o protagonista não participa do desfecho, apenas observa e John Ford, com todo o seu talento, registra isso da forma mais primorosa e elegante possível. E, na boa, quem não gosta de faroeste é panaca.

1 – O grande assalto ao trem – vamos filmar mais de pertinho?

Antigamente (com antigamente eu quero dizer no começo do século XX), a galera filmava muito mal. Os filmes eram todos filmados de longinho, mal atuado pra cacete, enfim, uma coisa difícil de aturar hoje em dia.

O impacto de O Grande Assalto ao Trem é enorme pois junta muitas inovações narrativas que estavam sendo feitas na época, como a montagem paralela. No final desse filme de 11 minutos, o ladrão aparece em close e dá um tiro em direção à platéia, algo muito inédito e por isso mesmo impactante na época. Quem vê o filme hoje também se assusta com o contraste entre o filme inteiro e esse plano final, homenageado por Scorsese em Bons Companheiros.

5 respostas para Os 10 planos mais inesquecíveis da história do Cinema

  1. Arthur disse:

    Suza só tem 9 planos e dois deles são o número 4.
    Aproveita e coloca aí aquele do Grande Otelo em Rio Zona Norte.

  2. JuK disse:

    Tb acho que falta o Grande Otelo.

  3. JuK disse:

    pra não deixar passar, o plano do paul newman embaralhando.

  4. Jasmin disse:

    Puta plano, faltou. Ele diz: Bazin sim, Eisenstein nóoooooot.
    E ah, Paul Newman…R.I.P.

    Sim, falta Grande Otelo com Angela Maria cantando fora de quadro, só falta.

  5. Cauê disse:

    Eu trocaria o do Tarantino pelo plano subaquático no final do Deixa Ela Entrar. Mesmo princípio, mais elegância. Claro, não discutamos quem brincou de “te sonego o extracampo” pela primeira vez.

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