Barbosa, Uma História Brasileira

"Maldito é o goleiro. No lugar onde ele pisa, nunca nasce grama".

– Don Rose Cavaca

Hoje faz 10 anos que morreu uma das figuras mais interessantes do futebol brasileiro: Moacir Barbosa Nascimento. Ou Barbosa, goleiro do Vasco da Gama entre 1945 e 1955 e guarda-metas da seleção brasileira na fatídica final da Copa do Mundo de 1950, que completará 60 anos no dia 16 de Julho.

Barbosa é uma figura interessante porque entrou para história pelo suposto único erro que cometeu na carreira.

Isso é típico da mitologia brasileira (é?). Temos esse impulso messiânico e episódico de guardar fatos isolados, transformá-los em mitos para endeusar ou destruir fulano e sicrano.

Mas como isso aqui não é um tratado sobre mitologia e sociedades brasileiras, vamos olhar para o Barbosa.

Dizem (afinal não vi) que Barbosa era um extraordinário goleiro, tanto que foi durante muito tempo titular do Vasco e, por quatro anos, o dono da posição na seleção brasileira (mesmo depois da final da Copa de 50, Barbosa foi o titular em diversas partidas. Reza a lenda que sua melhor fase na seleção brasileira foi em 51, mesmo depois de ser caçado pela mídia e torcida por causa da Copa).

O episódio que o imortalizou foi o segundo gol do Uruguai na final da Copa do Mundo de 50. O Brasil era o país sede e chegara com relativa facilidade até a fase final daquele mundial. Para imprensa e torcida, éramos os melhores do mundo e a taça estava ganha. Principalmente porque não havia partida final e sim uma chave final na qual o Brasil conseguira vencer Espanha e Suécia e, por isso, tinha a vantagem de poder empatar no jogo decisivo contra os uruguaios.

Obviamente, esqueceram de avisar a Celeste Olímpica (informe-se).

O Brasil abriu o placar com Friaça. Tomou o empate com Schiaffino e aos 34 minutos do segundo tempo aconteceu o famoso lance. Ghiggia entra sozinho pela lateral da área brasileira, Barbosa hesita em sair do gol e espera pela aproximação do atacante uruguaio; quando finalmente resolve sair, Ghiggia chuta forte no canto, a bola quica, engana o arqueiro brasileiro e estufa as redes. O Uruguai vira o jogo e conquista o segundo mundial de sua história.

Barbosa foi o jogador crucificado pela torcida e imprensa (sempre ela) pelo resultado. Ficou marcado por muitos anos pela hesitação na saída do gol, por ter deixado o canto para Ghiggia, por não ter feito o milagre que daria ao Brasil seu esperado primeiro título mundial. Ou seja, se Barbosa não ofi o messias do título, acabou como o Judas do vice.

Barbosa, amaldiçoado, tentava sempre se mostrar tranqüilo nas entrevistas. Numa delas tentou explicar, com bom humor, o lance: “O Ghiggia pensou errado e deu certo; eu pensei certo e deu errado”.

Resumindo a cancha, a história (um eufemismo para “nós brasileiros”) transformou Barbosa num símbolo da nossa derrota, do tempo em que o Brasil não ganhava de ninguém, um época em que ainda não éramos os melhores do mundo nem o país do futebol, apenas um país provinciano e humilde da América do Sul. Segundo Armando Nogueira (outro que se foi): “Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Gighia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera”.

Certamente injustiçado. Nunca vi uma lista de grandes goleiros que citasse o Barbosa. Ficou como figura maldita, uma espécie símbolo do fracasso, o episódio maior que a trajetória, o momento permanecendo para além da história. O imediatismo brasileiro? Nossa síndrome de vira-latas a ser apagada? Até quando amaldiçoar figuras que relembram, afinal, nossa falibilidade e nossos defeitos? (Eis o tratado)

A história de Barbosa é, também, uma história do Brasil. E apesar dele continuamos, muitas vezes, a perder na véspera.

PS: Para saber mais sobre Barbosa e a Copa do Mundo de 50, três livros: Barbosa, de Roberto Muylaert; Dossiê 50, de Geneton Moraes Neto; e Anatomia de uma Derrota, de Paulo Perdigão.

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4 Responses to Barbosa, Uma História Brasileira

  1. Eduardo disse:

    Muito boa a sacada (eu diria a captura -sic- da efeméride de 7 de abril he he) e melhor ainda o texto. Podia até pautar a chamada “imprensa esportiva”, que nem sei se existe…

  2. André Cruz disse:

    Este senhor na última foto não é o guarda-redes Barbosa, disto tenho plena certeza.

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