Paisagem da Janela

Já é hora de todo mundo aqui saber que de bom gosto o inferno tá cheio.

“Bom gosto”: o que isso quer dizer, afinal? O gosto é exatamente o que define o que é bom e o que é ruim, ele é o que saboreia, e não o que é saboreado. Não é como se, a cada fim de mês, uma trupe de aristocratas franceses saissem na rua lambendo a língua dos transeuntes e constatando: “Hmm… bom gosto” ou “Eca, que mal gosto!”.

Veja bem, não sou um relativista. Existem coisas que são boas e pronto. E outras que são ruins. Bom gosto é um termo que trata de outra coisa: a finesse e, meu, salada TEM QUE SER COM FLOR DE SAL!

PASSA ESSE ROMANÉE CONTI PRA CA CARALEO

Dado o fato de que “bom gosto” é coisa de gente mal comida e/ou ignorante e/ou fresca e/ou simplesmente pentelha, queria agora me ater à ponta contrária da discussão e examinar, com olhos críticos, para a cafonice desenfreada que a gente tem que aguentar vez ou outra.

Porque um pouco de cafonice é bom, e às vezes muita cafonice é exatamente o que falta em nossas vidas. Mas existe um nível da bregalhada que nos causa ânsia, vergonha, o que não são sentimentos completamente insuportáveis, mas que acabam impedindo com que a gente veja as reais qualidades de uma obra.

E é nesse ponto que Lô Borges, meu ídalo, peca bastante.

Porque um Girassol da cor de Seu Cabelo é clássico e obra de gênio. De fazer Paul McCartney molhar suas cuecas britânicas. Assim como Não foi Nada, Cravo e Canela, entre outros. Outras músicas, como Resposta, são simplesmente ruins.

Todas essas músicas tem um quê de cafonice. Mais ou menos como em casamento de família: por mais chique que ele seja, sua vó sempre teima em colocar aquele presunto enrolado no melão entre os aperitivos.

Salgadinho por fora, molhadinho por dentro.

E você pode dizer o que quiser sobre presunto com melão (eu, pessoalmente acharia uma merda não fosse o fato de que eu acho uma delícia), mas não há como não admitir que Lô Borges, nosso querido compositor mineiro, é foda.

E ele pode parecer o quanto ele quiser com a minha tia, eu vou continuar gostando do cara!

Mas existe uma música dele em especial, chamada Paisagem da Janela, que é um verdadeiro causador de úlceras. A música pode ter suas qualidades melódicas ou harmônicas, mas elas estarão para sempre obscurecidas sob o filtro da cafonice ilimitada.

Na boa, a letra dessa música está entre as 5 coisas mais horripilantes que eu já vi na minha vida. Assistir a um filme do David Lynch num cinema escuro ao lado de um mendigo que se masturba enquanto cantarola Carmina Burana me deixaria menos perturbado.

Afinal de contas, que caralho é uma “cor mórbida”? Bege? E “mensageiro natural”? Que porra é essa, mano? Toda vez que eu ouço essa música, eu imagino o Lô Borges compondo a letra na geladeira, com aqueles imãs que são um monte de palavrinhas aleatórias que você cola uma do lado da outra.

DA | JANELA | LATERAL | DO | QUARTO | DE | DORMIR

Dito isso, eu gostaria de admitir publicamente que eu gosto bastante de Paisagem da Janela. Toda vez que eu ouço essa música no meu Ipod enquanto caminho pela rua, tenho uma sensação de pura nostalgia, e lembro como se fosse ontem daquele dia anterior em que eu também estava caminhando na rua e ouvindo Paisagem da Janela no meu Ipod. E toda vez que isso acontece, eu penso: “Sabe o que eu preciso fazer amanhã? Ouvir Paisagem da Janela!”

Lô Borges, você me fisgou!

11 respostas para Paisagem da Janela

  1. Laura disse:

    adorei!

  2. Fernanda disse:

    Suza, adoro seus posts. Você é um… um… mensageiro natural!

  3. Felippe disse:

    Achei que essa nostalgia ao ouvir Paisagem da Janela fosse coisa só de mineiros, interessante!… Tipo ler Adélia Prado… Realmente pela primeira vez agora parei pra pensar na letra, ponto-de-vista interessante o seu, não sei até que ponto ela faça algum sentido! Que coisa… Tudo bem que tem essa visão meio impressionista de uma cidade do interior e tals, mas…

  4. Bruno Suzuki disse:

    Os pombos são mensageiros naturais.

  5. Amanda disse:

    “Assistir a um filme do David Lynch num cinema escuro ao lado de um mendigo que se masturba enquanto cantarola Carmina Burana me deixaria menos perturbado.”

    Dessa vez foi o “demonônio” que soprou no ouvido do Suza.

  6. Jasmin disse:

    Brilhou.

    E cara, sempre quis escrever alguma coisa falando mal do bom gosto e bem de Paisagem da Janela; não, não, isso não.

  7. Carlos Brant disse:

    Acho que Lô Borges fez parte de alguma escola de mistérios. Cores mórbidas é a falta de luz, de clareza, de ilusão que muitos usam para ludibriar pessoas (por isso homens sórdidos).

    Esta música fala de uma pessoa especial, elevada, que prega conhecimentos. Um filósofo à Maneira dos Arcaicos (tipo gregos, pitagóricos, estóicos, etc..). Que não instrui por recompensa. Instrui por amor. Por isso cavaleiro negro que viveu mistérios, sem querem descanço nem dominical. Mensageiro de coisas naturais, de acordo as LEIS físicas e metafísicas.

    Ele via tudo do quarto de dormir pois não tinha a consciência totalmente desperta.

    Gosto muito de Lô Borges pois as músicas são muito simbólicas. Nos identificamos, indiferente do grau de consciencia. Não tem nada de brega.

  8. Pablo disse:

    Para muitas pessoas (como o autor do post) essa musica pode parecer sem nenhum sentido, entretanto existe um conteúdo político oculto. Durante a ditadura civil militar no Brasil a censura a liberdade de opinião era brutal, e por isso muitos músicos de caráter progressista escreviam suas músicas em formas de charadas ou de conteúdo aparentemente sem sentido real. Existem muitas musicas escritas assim durante esse período é necessário uma leitura altamente critica. Analisando a musica…

  9. Pablo disse:

    … analisando a musica podemos usar como citação um fragmento de um artigo sobre música e resistência politica:

    Mesmo “Paisagem na janela” (Lô/F. Brant), considerada apenas uma canção “pop” (“Da janela lateral/do quarto de dormir”), dentro do contexto temático do álbum, embora mostre coisas aparentemente normais (“vejo uma igreja, um sinal de glória/vejo um muro branco e um vôo pássaro/vejo uma grade, um velho sinal”), na exposição de “cores mórbidas, homens sórdidos, temporal, cemitérios e velórios” pode revelar:

    […]a paisagem densa e triste reinante, apesar da insistência do destinatário da canção em não querer acreditar no que está acontecendo no país (reparar a repetição do verso ‘Você não quer acreditar’). ‘Mas isso é tão normal’ não acreditar que a realidade política seja essa: o regime caça, prende, tortura, mata e existem vários cavaleiros marginais fugindo ‘sem querer descanso nem dominical’.[*21]

  10. LINDOMAR CABRAL disse:

    Essa letra fala a respeito de alguém preso na época da ditadura militar, talvez o Milton Nascimento ou outra pessoa tenha expressado sua mensagem desta forma por causa da censura levando o completo entendimento da letra pelo lado oculto. até mesmo a palavra chave “velhos sinais”. a Flavia escreveu algo a respeito pode ver no link https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20091005074618AAYN8aX

  11. Juju beleza disse:

    Nunca li tanta idiotice escrita em um unico texto antes. Você precisa estudar mais.

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