Dr. Morte

Vai uma eutanásia aí?

Dr. Jack Kevorkian é um dos maiores ativistas vivos da eutanásia. Preso durante 8 anos por assistir mais de 130 pacientes terminais a morrerem de maneira rápida e indolor, Kevorkian foi apelidado pela imprensa de Dr. Morte, uma alcunha tão imparcial quanto Aquela Vaca Mal Comida, apelido que dei à minha professora de francês da 6 série quando ela me deixou de recuperação.

O lema de Kevorkian, “morrer não é crime”, é antagônico à ética médica ocidental que, impregnada de um moralismo demodé e religioso, não consegue ao menos entender os argumentos bem fundamentados do Dr.Morte, como nesta entrevista dada ao FOX News, também conhecido como O Canal mais Retardado do Planeta (apelido imparcial).

Quem viveu os anos 1990 lembra muito bem de Dr. Jack Kevorkian, aparecendo na televisão em tribunais ou ouvindo protestos acalorados de gente que gostava de chamá-lo de “serial killer”, categoria mais comumente atribuída a psicopatas e gente fodida da cabeça. Dr. Kevorkian enfrentou uma enxurrada de protestos contrários ao seu ponto de vista e nunca perdeu os culhões de dizer o que ele achava, o que por si só faz dele um cara realmente admirável.

Pica dura

Pica dura

Quem viveu os anos 1990 também lembra de outra personagem célebre, uma velhinha albanesa chamada Agnes Gonxha, também conhecida como Madre Teresa de Calcutá, alcunha esta completamente incompreensível porque, na boa, uma pessoa que se chama Gonxha certamente não precisa de apelido.

Assim como Dr. Jack Kevorkian, Gonxha lidava com pacientes terminais. A abordagem, porém, era completamente oposta ao do Dr.Morte, pois Gonxha acreditava no sofrimento como forma de redenção. Por isso, ela criava centros para moribundos onde qualquer tipo de conforto era proibido. Os pacientes da Madre Teresa de Calcutá ficavam espalhados em colchonetes e recebiam o mínimo necessário para não morrer de sede e fome. Alguns deles, como relatam enfermeiras que trabalharam com Agnes Gonxha, tinham chance de sobreviver se fossem para um hospital de verdade, mas não puderam ser transferidos por ordem da Madre.

Madre Teresa de Calcutá, além de ativista do sofrimento, pregava a proibição do aborto em qualquer caso e do uso de contraceptivos e se aliou a uma série de milionários e políticos de caratér mais do que duvidosos. Nem por isso ela deixou de ser santificada pelo papa João Paulo II, assim que morreu, além de ser laureada com um prêmio Nobel da Paz enquanto ainda estava viva.

Cuzona

Já Dr. Jack Kevorkian, que não negava tratamento a pacientes curáveis e ajudava pessoas sem chance de sobrevivência a morrerem de maneira tranquila, foi condenado e preso no auge de seus 70 anos.

Por mais contrário que você seja da eutanásia, é fácil de notar a diferença gritante entre a humanidade da Madre Teresa e do Dr. Kevorkian. Por isso, duas recomendações: para conhecer mais sobre a vida de Jack Kevorkian, vocês podem baixar ilegalmente o mais novo filme da HBO You Don’t Know Jack, em que Al Pacino interpreta o Dr. Morte e contracena com Susan Sarandon e John Goodman (filme dirigdo por Barry Levinson, indicado a uma porrada de Emmys). Quanto à Madre Teresa, para quem acha uma afronta à bondade humana falar mal dela, deliciem-se com os argumentos de Christopher Hitchens em seu documentário Hell’s Angel, que estuda a vida da Santa:

Parte I

Parte II

Parte III

3 respostas para Dr. Morte

  1. Rita disse:

    Muito bom! Me sinto toda uma pessoa desinformada por ainda achar que Madre Teresa de Calcutá era uma boa pessoa.

    Mas essa entrevista é impagável! seria tão bom se o entrevistador tivesse mais de 3 neurônios, pra conseguir ficar devidamente humilhado…

    O cara já me conquistou na correção de que ele não é ateu, é agnóstico – pq pelo menos ele é honesto. Vou baixar o filme🙂

  2. Nina disse:

    Suza, incrível!

  3. dulce disse:

    que isso Suza. tô chocada com a malvadeza da Teresa (viu a rima?). eu também acreditava nas suas boas ações. ainda bem que nunca a interpelei em minhas orações. outro dia um amigo meu, que estuda a vida dos santos, me contou que é uma farsa a vida milagrosa de Santa Terezinha de Jesus. a irmã dela (que também era freira) escreveu um diário como se fosse ela e inventou tudo. e meu pai, tadinho, era o maior devoto dela. até batizou a tê, minha irmã, com o mesmo nome. penso agora que talvez a gente não consiga as graças por isso. a maioria deve ter uma perversidade dissimulada.
    quanto ao Dr. Kevorkian me identifico muito. já tivemos de abreviar a vida de três dos nossos bichos. e quem quer prolongar a vida de alguém que é querido, sofrendo, sem chance de cura?
    Bem, só posso desejar para aqueles que o condenaram, que Madre Teresa os abençoe.

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